Aquela senhora
Cerca de uma vez por mês, ao sábado, tomo o pequeno-almoço num café no centro da cidade. Num desses dias, percebi que existem clientes habituais, tal como noutros sítios, com os seus rituais e que provavelmente fazem aquilo todos os dias ou pelo menos ao sábado de manhã.
Um dos clientes atraiu a minha
atenção. É uma senhora, com uma idade avançada, que geralmente toma o
pequeno-almoço sozinha. Aquilo que despertou a minha curiosidade foi a postura
elegante da senhora. A roupa e os acessórios condiziam e notava-se um cuidado
na forma de vestir.
Quando tinha 20 e poucos anos ia
com frequência a Coimbra. Um dos aspetos em que reparava é que as pessoas já
reformadas, apresentavam um cuidado com a forma de vestir, à qual não estava
habituada. Provavelmente, teriam profissões que exigiam um certo rigor no
vestuário e mantinham esse hábito, após o término da vida ativa. Lembro-me de
pensar que era preciso muita vontade para continuar a vestir um fato, mesmo sem
ser necessário. Talvez a roupa funcionasse como uma segunda pele, uma
identidade que é difícil de despir. Afinal, o trabalho representa, muitas
vezes, a maior parte da vida de uma pessoa.
Atualmente, 30 anos depois, a
forma de vestir tornou-se mais informal e o exemplo disso são os ténis que
vieram para ficar e que são utilizados por todos e em inúmeras situações, mesmo
aquelas que exigem mais formalismo.
Mas voltando ao café, a minha
reflexão mais do que sobre o vestuário e o esmero demonstrado por aquela
senhora, é a vontade que perceciono de manter uma rotina, de sair e estar com
os outros. Questiono-me se naquela idade terei a mesma preocupação e intenção.
A senhora despertou a minha
curiosidade porque a forma como se arranja, transmite confiança, apesar do ar
frágil, alguém que está ciente da idade, mas que continua a ter vaidade em
arranjar-se, sair de casa. Nessa altura penso nas pessoas, independentemente da
idade, que por algum motivo não saem de casa, que não têm essa determinação,
esse pretexto.
Eu gosto muito de estar em casa,
mas será que quando atingir aquela idade terei aquele brio e determinação?
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